'Professores reclamam mais do medo que do
salário', diz psiquiatra
Ricardo Senra
Da BBC Brasil em São Paulo
25 agosto 2014.
À frente de sessões de terapia em grupo para professores da rede pública
há mais de 25 anos, o psiquiatra Lenine da Costa Ribeiro diz que as agressões
físicas e verbais vindas de alunos são os principais motivos de doenças
psicológicas entre os educadores que recorrem ao divã.
Segundo
o médico do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São
Paulo, seis em cada dez professores não conseguem mais voltar às salas de aula
após enfrentarem episódios de agressões graves - como humilhação, ameaças e
ataques físicos.
VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES
Segundo os dados nacionais da Prova
Brasil, do Ministério da Educação (2011), um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos.
Um em
cada dez afirmou ter sofrido ameaças e
aproximadamente um
a cada 50 disse ter sido agredido físicamente por estudantes.
Entre 2003 e 2004, pesquisa da Unesco
mostrou que
83% dos alunos de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto
Alegre, Salvador, Belém e do Distrito Federal disseram que havia violência nas escolas públicas onde
estudavam. Entreprofessores e funcionários, o número
sobe para 86%. Cerca de 30% deles viram armas nas mãos dos alunos.
Investigação de 2013 da Apeoesp
(Associação dos Professores do Estado de São Paulo) indicou que 44% dos professores da rede
estadual afirmam já terem sofrido alguma violência(agressão verbal ou física) nas escolas onde dão aula.
O tema da violência em sala de aula
contra professores também foi destacado em posts deFacebook e no Twitter por
leitores em consultas promovidas pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que
usa as redes sociais em busca de uma maior integração com o público.
A pedido da BBC Brasil, internautas,
entre eles professores, compartilharam, via Facebook,diferentes relatos sobre
violência cometida contra profissionais de ensino. Houve também depoimentos
feitos via Google+ e Twitter.
De acordo com Ribeiro, assumindo cargos de "readaptação", como
funções na secretaria ou na biblioteca escolar, esses educadores tendem a ser
vistos como figuras menos importantes do que aqueles que seguem dando aulas.
Desinteresse pela vida, depressão, perda de memória e problemas de
cognição são algumas das consequências da violência no cotidiano das escolas,
diz o psiquiatra. Leia, a seguir, os principais trechos da conversa:
BBC
Brasil - A violência na escola é um tema recorrente nas sessões de terapia?
Lenine
da Costa Ribeiro - O medo dos alunos, as situações de agressão e humilhação e a sensação
de impotência são as queixas mais comuns nas reuniões. Fala-se sempre sobre
salário ou infraestrutura das escolas, mas a insegurança do professor em
relação aos alunos é um tema bem mais frequente. Os professores reclamam mais
do medo que do salário.
BBC
Brasil - Quais são suas consequências para a saúde dos professores?
Ribeiro
- Surgem transtornos de ansiedade generalizada. O estresse pós-traumático
é um agravamento importante da saúde mental e leva a sintomas como pânico em
diferentes níveis, falta de interesse pela vida, depressão, perdas de memória,
dificuldades de cognição e fobias distintas. São sintomas que não respondem
rápido aos tratamentos e que por isso costumam ser longos, assim como os
períodos de afastamento, que chegam a durar mais de um ano.
BBC
Brasil - Como é esse tratamento?
Ribeiro
- Primeiro, com medicação.
Antidepressivos e neuromoduladores. O tratamento medicamentoso tenta abreviar o
sofrimento o mais rápido possível, mas também são necessários pelo menos dois
anos de monitoramento. Neste período o professor participa de sessões de psicoterapia
feitas em grupo, onde todos compartilham e discutem experiências. Muitos deles
são afastados das escolas até que consigam se recuperar.
Cada
agressão afeta não só a relação do professor com o agressor, mas também com
todos os demais alunos
BBC
Brasil - Quais são os principais relatos compartilhados nas sessões?
Ribeiro
- Há pessoas que tinham grande capacidade de dar aulas, articulação
didática, e que ficaram completamente apáticas. O mais frequente é a
incapacidade do professor de dar aula porque está sendo impedido
agressivamente. Ele não consegue mais se impor e perde toda a autoridade diante
da turma. Ameaças também são frequentes, não são só ameaças contra a vida, mas
contra o patrimônio da pessoa, como esvaziar os pneus do carro, por exemplo. O
maior medo é sofrer reprimendas na rua, depois das aulas, fora da escola.
BBC
Brasil - Algum caso que o tenha marcado?
Ribeiro
- Uma professora tinha advertido um aluno em sala. Na reunião de pais, a
família, particularmente o pai, foi muito intensamente agressivo no auditório
repleto de pessoas. Seu discurso era raivoso e acusador. Depois desse evento,
ela nunca mais pode funcionar da mesma maneira. A maneira agressiva com que ele
tentou tirar satisfações foi tão hostil e a estressou de tal forma que essa a
professora nunca mais conseguiu dar aulas. A humilhação é tão dolorosa quanto a
agressão física. São várias as formas de violência.
BBC
Brasil - Pode falar sobre estas diferentes formas de agressão?
Ribeiro
- A violência física não costuma ser tão explícita, ela é menos comum. Na
rotina mesmo estão as agressões verbais, a desconsideração, um desrespeito
profundo à condição do professor. O que acontece é uma descaracterização de seu
papel. O educador, aquela pessoa que seria central e determinante na construção
de um sujeito, de um indivíduo, de uma personalidade, é tirado de seu lugar.
Isso é muito grave, tem consequencias muito importantes, porque cada agressão
afeta não só a relação do professor com o agressor, mas também com todos os
demais alunos.
BBC
Brasil - É comum que os professores extravazem este estresse agressivamente
sobre os alunos?
Ribeiro
- Quem está limitado não costuma criar enfrentamentos. Essas pessoas
costumam ter respostas mais apáticas, por conta da ansiedade, da depressão.
Isso tudo acaba colocando o professor numa situação de limitação e quase sempre
quem está limitado não consegue entrar em situações de enfrentamento.
Uma
porcentagem importante, em torno de 60% dos pacientes, volta para a escola
ocupando funções administrativas, ou na biblioteca, na secretaria. Este retorno
é muito difícil.
BBC
Brasil - Como é o retorno destes professores à sala de aula?
Ribeiro
- O que vejo nesses casos é que o retorno acontece quase sempre de forma
readaptada, e não à sala de aula. Uma porcentagem importante, em torno de 60%
dos pacientes, volta para a escola ocupando funções administrativas, ou na
biblioteca, na secretaria. A readaptação é às vezes a única maneira de dar
continuidade ao cargo. Este retorno é muito difícil.
BBC
Brasil - Como as escolas costumam reagir aos pedidos de afastamento?
Ribeiro
- Posso falar sobre o momento do retorno. Os readaptados dizem sempre
sofrer algum tipo de prejuízo. Isso acaba se tornando parte da própria condição
social deles. Acabam sendo vistos como uma posição de menos valia, o que causa
baixa autoestima. É como se eles passassem a ter menos valor do que aqueles que
estão lecionando.
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/08/140818_salasocial_eleicoes_educacao_psiquiatra_rs#share-tools. Acesso em 14-10-2016.
Por Márcia Xavier
Grupo: Carla, Márcia e Marise
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirNão importa se a escola é pública ou privada, se é grande ou pequena, se está inserida em uma comunidade, ou, em um bairro de classe média. A violência se faz presente e, em muitos casos, agride psicologicamente aos profissionais que atuam na área de educação. É preciso que haja uma mobilização de todos no que se refere sanar esse gigantesco problema no cotidiano escolar.
ResponderExcluirPor Márcia Xavier
Grupo: Carla, Márcia e Marise